Cariocas fazem show em homenagem a
João Pernambuco na cidade natal do compositor

Se João Pernambuco estivesse vivo, o violonista estaria feliz da vida, pelo menos neste último fim de semana. Mas como já se foram mais de 60 anos de sua morte (1883 -1947), fica para nossa humilde geração testemunhar como o pernambucano ainda movimenta músicos pelo país e pelo mundo, integrando sambista e chorões à cultura nordestina e ao sertão. Desembarcou na quinta-feira em Petrolândia (PE) o grupo Turunas Cariocas, formado por cinco jovens de Niterói: Leo Fernandes (violão de 7 cordas), Fabio Neves (violão e viola), Paulinho Ramos (bandolim), Diogo Barreto (pandeiro) e a cantora Laura Zandonadi.
O grupo que investiu no projeto de divulgar a obra do violonista foi convidado pela prefeitura da terra natal de João Pernambuco para um show em homenagem ao compositor, na comemoração dos 20 anos da nova sede do município (que substituiu a antiga cidade de Jatobá, inundada por uma hidrelétrica). A apresentação foi na Praça da Matriz de Petrolândia.
"Quando começamos a pesquisar a vida do João Pernambuco, e líamos que ele tinha nascido no sertão pernambucano, jamais poderíamos imaginar que um dia estaríamos lá na terra dele. Pra gente foi uma emoção muito grande, não só poder visitar a sua cidade, como também poder mostrar esse show pra população de Petrolândia. Provavelmente, as gerações mais novas de lá nunca ouviram falar em João Pernambuco, então foi muito bom mostrar o quanto a cultura deles é rica e importante pra música brasileira, em especial o choro."
 
Idas, vindas e internet

Ao completar 20 anos de idade, o compositor da famosa Luar do Sertão se mudou para o Rio de Janeiro, divulgou a música sertaneja na cidade e acabou estimulando a vinda de grupos nordestinos para o Rio, como os Turunas Pernambucanos. Aí então passou a influenciar artistas cariocas e paulistas, inspirando também nomes santos como de Noel Rosa, Almirante e João de Barro. Passados mais de 100 anos, foi a vez dos Turunas Cariocas viajarem para mostrar aos pernambucanos parte do repertório pouquíssimo divulgado do violonista, incluindo não só músicas sertanejas, mas choros, valsas, tangos brasileiros, maxixes e toadas.
 
Esse novo intercâmbio, porém, contou com uma facilidade que os grupos do século passado estavam longe de sonhar: a internet. Quando o secretário de Indústria, Comércio e Turismo de Petrolândia, Marcos Rogério Viana, decidiu prestar a homenagem a João Pernambuco, descobriu na rede o site http://www.joaopernambuco.com/, criado pelo músico e pesquisador italiano Angelo Zaniol. No ar desde outubro de 2007, o site conta a história do compositor e traz canções, partituras e novos arranjos. Angelo Zaniol, que pesquisa a obra de Pernambuco há muitos anos, já atraiu para seu site também figuras ilustres do cenário do Choro, como Luciana Rabello e Hermínio Bello de Carvalho, além de diversos pesquisadores importantes. Foi o italiano que indicou os Turunas Cariocas para a apresentação desta quinta, em Petrolândia.
«Fui contatado por Leonardo Fernandes, líder do grupo Turunas Cariocas, em julho de 2007 e nasceu uma bela amizade, devido ao interesse comum pela obra violonística do grande mestre pernambucano. Os Turunas Cariocas me enviaram algumas gravações de músicas de João Pernambuco, realizadas por eles (Graúna, Interrogando, Estrada do Sertão), e pude assim avaliar a ótima qualidade das interpretações deste conjunto. Não hesitei em aconselhá-lo a Marcos Rogério Viana, que entrou em contato comigo após o lançamento do site. Estava seguro de que os Turunas Cariocas iriam distinguir-se em Petrolândia, durante as comemorações aos 20 anos de fundação da nova sede da cidade», aposta Angelo Zaniol.
Por aqui, os Turunas Cariocas se apresentaram num Café-Teatro na Lapa, no projeto Arte Jovem de Niterói e no programa do Lauro Gomes na Rádio MEC. João Teixeira Guimarães (Pernambuco) é considerado por muitos não apenas um dos maiores nomes do violão brasileiro, mas um dos responsáveis pela formação e consolidação do gênero que veio a se chamar Música Popular Brasileira. Para que o distinto grupo dê suas canjas nos nossos arredores cariocas, basta que algumas portas se abram. Muito bonito o reconhecimento do grupo na cidade natal de Pernambuco, mas não seria nada mal que a outra terra tão amada pelo violonista pudesse ouvir mais de seus sucessos.

Mabel Gomes