DEPOIMENTO

UM ENCONTRO IMPROVÁVEL

Luiz Otávio Savassi Rocha
Professor da Faculdade de Medicina da UFMG
Sócio do Clube do Choro de Belo Horizonte

           Em 1917, meu pai, Cristóvão Colombo Rocha, nasceu em Cordisburgo(MG), na mesma rua onde nascera, nove anos antes, João Guimarães Rosa, o mais criativo escritor da língua portuguesa, que, como eu, graduou-se pela Faculdade de Medicina da UFMG (ele, em 1930; eu, em 1968). Coincidência ou não, eu me apaixonei por sua obra literária, a ponto de escrever vários ensaios sobre o tema. Em 1918, minha mãe, Neli Costa Savassi, de ascendência italiana pelo lado paterno, nasceu no Rio de Janeiro, na Rua Conselheiro Salgado Zenha, Bairro da Tijuca, e foi registrada na 5ª Pretoria do Engenho Velho. Ora, o Rio de Janeiro foi o berço do choro, que surgiu na segunda metade do século XIX: a composição Olhos matadores, do maestro Henrique Alves de Mesquita – o 1º “tango-brasileiro” –, foi registrada em 1871. Coincidência ou não, eu me tornei um incorrigível “chorão”. Este depoimento, carregado de emoção, registra meu encontro (até então altamente improvável) e minha posterior interação com uma pessoa muito especial: Angelo Zaniol, que, salvo prova em contrário, pode ser considerado, por razões várias, o maior chorão da Itália, quiçá de toda a Europa.
         Tudo começou em julho de 1994, quando Antônio Lúcio, colega de turma do meu filho Alexandre, na Faculdade de Medicina  da UFMG, partiu, em companhia da amiga Gláucia, para uma tournée de um mês pela Europa, que se encerraria na Inglaterra, na casa de seu irmão Mauro, meu ex-aluno, que fazia pós-graduação naquele país. No exato momento em que, na estação de Veneza, os dois jovens subiam os degraus de um trem noturno que os levaria a Viena, foram abordados por um rapaz de nome Alessandro Gori, natural de Udine, que estudava língua e literatura estrangeiras (português, catalão e castelhano) na Università  Ca’ Foscari e que colaria grau, cum laude, defendendo a tese Musica Popolare e Società in Brasile durante la Dittatura Militare: Chico Buarque e Caetano Veloso. Ao ouvir duas pessoas da mesma faixa etária conversando em português, Alessandro, que viajaria no mesmo trem noturno com destino a Praga, aproximou-se, fez amizade com Antônio Lúcio/Gláucia e revelou sua intenção de conhecer o Brasil, o que de fato aconteceria alguns meses depois, ainda em 1994. Quando de sua passagem  por Belo Horizonte, Alessandro esteve em minha casa, levado por Antônio Lúcio, e ouviu peças da MPB (particularmente choros) interpretadas por meus três filhos, ficando entusiasmado. Retornando à Itália, revelou sua experiência ao amigo Angelo Zaniol, residente em Castelfranco Veneto (comuna da Província de Treviso) e docente de Metodologia e Tecniche del Restauro dei Beni Musicali do Dipartimento di Storia e Critica delle Arti “G. Mazzariol” da Università degli Studi di Venezia. Apaixonado pela MPB e, em especial, pelo choro – “a essência musical da alma brasileira”, no dizer de Villa-Lobos –, Angelo Zaniol enviou-me, em italiano, uma  primeira carta, datada de 4/1/1995, propondo que passássemos a nos corresponder, mesmo porque, ele próprio, a exemplo de Alessandro, dedicava-se ao estudo da língua portuguesa e acalentava, havia alguns anos, o sonho de conhecer o Brasil – sua “segunda pátria”.
         A partir de então, sempre pelo correio, iniciamos rica permuta de idéias, experiências, textos (relacionados não apenas com a música, mas com as artes em geral), partituras, fitas-cassete e CDs, de tal forma que Angelo Zaniol se apropriou, um pouco mais, da cultura brasileira, e eu me apropriei, um pouco mais, da cultura italiana (conterrâneos do poeta Virgílio, os Savassi – originalmente Savazzi – aportaram no Brasil em 1886, provenientes da província de Mantova, na Lombardia, e fixaram-se, inicialmente, no Centro Agrícola de Picinguaba, distrito de Ubatuba - SP).
         O impacto sobre Angelo Zaniol das primeiras gravações que lhe enviei e que, em sua maioria, não faziam parte de seu rico acervo, pode ser avaliado por suas próprias palavras, em carta datada de 25/5/1995. Na referida carta, em que lamenta a morte prematura de Raphael Rabello – que considerava, sem tê-lo conhecido, uma espécie de irmão mais novo ou mesmo um filho seu –, assim se expressa ele a respeito da fita-cassete que acabara de receber: “...l’ho ascoltata con un stato d’animo assai vicino al ‘rapimento’ o all’estasi dei mistici e ad ogni ascolto successivo il piacere aumenta invece di diminuire”. E, logo em seguida, destaca o choro Penazziando e a valsa Mosquita, de autoria da pianista pernambucana Tia Amélia, interpretados pela própria autora, na avançada idade de 87 anos. Destaca também o choro Calor das Cordas, do violonista paulista Adalberto Tafuri, interpretado pelo autor, chegando a afirmar: “Trovo che in questa musica c’è una parcella della grande anima di João Pernambuco, che amo alla follia...” Além disso, confessa-se sensibilizado com a letra de Paulo César Pinheiro para o choro Homenagem à velha guarda, de Sivuca, por meio da qual o inspirado poeta faz, entre outras imagens felizes, a apologia do desempenho do violão de sete cordas (“fazendo desenhos nos bordões”) e lamenta, no que concerne às rodas de choro, que “Tudo já ficou pra trás/passou nos carrilhões/quase ninguém se manifesta/pouca coisa hoje resta/lembrando os tempos bons/dessas reuniões”. Ultimamente, numa perspectiva mais otimista, detecta-se um aumento do interesse pelo choro, mesmo entre as gerações mais jovens. Apesar disso, o impacto ainda parece ser bastante limitado. Para comprová-lo, basta dizer que, em  26/8/2007, um domingo, eu e minha esposa fomos assistir ao documentário Brasileirinho, dirigido pelo finlandês Mika Kaurismäki, e não havia mais ninguém no cinema! O médico psiquiatra Paulo Henrique Ribeiro Resende Alves, membro do Clube do Choro de Belo Horizonte, passou por experiência semelhante: quando o filme começou, ele era a única pessoa na platéia! Importa assinalar que o primeiro médico a filiar-se ao Clube do Choro de Belo Horizonte, na condição de sócio fundador, foi meu estimado colega de turma Ivan Cunha Melo – o Dr. Ivan –, percussionista e afinado cantor.
         Depois de receber matéria sobre o musicólogo teuto-uruguaio Francisco  Curt Lange (1903-1997), incansável pesquisador da música colonial mineira,  e uma segunda fita-cassete, contendo, entre outras composições, Caxinguelê (de Dilermando Reis, com o autor), Marreco quer água (de Pixinguinha, com o conjunto Camerata Carioca), Melancolia (de Rossini Ferreira, com o grupo Amigos do Choro) e Quebradinha (de Ernesto Nazareth, com Arthur Moreira Lima e chorões de alta estirpe), assim se expressou o amigo italiano, desta feita em português: “Como agradecer-lhe toda essa cocaína musical e literária?  Posso somente lhe dizer que essa música primorosa me faz perder a tramontana e  tem o poder de afastar de mim toda a mágoa, que me vem de um caráter bastante ‘merencório’, isto é, soturno e cismador”.
         Em julho de 1995, Angelo Zaniol chegou ao Brasil, permanecendo a maior parte do tempo no Rio de Janeiro, onde se hospedou no Colégio Santo Antônio Maria Zaccaria (dos padres barnabitas), pesquisou sobre a MPB e conheceu muitas pessoas do meio musical. Data dessa época a composição de sua autoria batizada de Meditação e inspirada na visita que fez, no Cemitério do Catumbi, ao túmulo de João Pernambuco, no dia 16 do mesmo mês. Além de sua velha admiração pela obra do autor de Sons de carrilhões, Angelo Zaniol ficou extremamente sensibilizado com as proféticas palavras gravadas em seu túmulo: “Almas eleitas ouvirão teu som”.
            Em 28/7/1995, uma sexta-feira, Angelo Zaniol veio de ônibus para Belo Horizonte, hospedando-se em  minha casa. No dia seguinte, pela manhã, levei-o à Rua Viamão 1095, residência do exímio cavaquinista Ausier Vinícius, natural de Peçanha, um apaixonado, como o amigo italiano, pela obra de Waldir Azevedo. Tanto assim que, ao retornar ao Rio de Janeiro, Angelo Zaniol colocou a viúva de Waldir Azevedo, D.Olinda, em contato com o músico mineiro, a ponto de se tornarem grandes amigos. Ademais, em 2/2/1996, por ocasião da inauguração, no bairro Dona Clara, do Bar Pedacinhos do Céu, D. Olinda foi a convidada de honra. Para minha alegria, meu filho Renato (solo de flauta) e Ausier Vinícius (solo de cavaquinho) interpretaram, em sua homenagem, o choro Vê se gostas, acompanhados por integrantes do conjunto Sarau Brasileiro. Pode-se mesmo afirmar que a visita que fiz a Ausier Vinícius, em companhia de Angelo Zaniol, naquela manhã de sábado, estimulou-o a criar o Bar Pedacinhos do Céu (hoje um “espaço cultural” situado no bairro Caiçara), como reconheceu o próprio Ausier, em cartão que me enviou em 19/1/1996: “Savassi: Tudo começou neste dia. O resto você sabe. Muito obrigado pelo presente que você me deu” (palavras escritas no verso de foto batida na casa da Rua Viamão, em que apareço ao lado de Angelo Zaniol). A expressão “pedacinhos do céu” foi, naturalmente, retirada do choro homônimo de Waldir Azevedo, dedicado às filhas  Marly e Miriam. Esta última, falecida prematuramente aos 18 anos, foi homenageada pelo compositor com uma linda valsa que, executada por Ausier Vinícius, com acompanhamento de Sílvio Carlos, está registrada no DVD recém-lançado pelo Clube do Choro de Belo Horizonte, em comemoração ao Dia Nacional do Choro (Teatro Marília, 23 de abril de 2007).
         Na tarde de sábado, 29/7/1995, fui com Angelo Zaniol  à casa do notável  luthier (autodidata) Mário Machado, situada na aprazível Travessa Rego Grande, na vizinha cidade de Nova Lima. Foi um encontro memorável pois Angelo Zaniol, ele próprio um luthier, já havia construído na Itália, entre 1976-1991, com a marca e divisa Dulcis ex arbore sonus (O doce som que vem da árvore), uma série de instrumentos musicais, como, por exemplo: flauta transversa renascentista; flautas de bico barrocas; vários instrumentos do século XV (viela de arco, alaúde, rabeca e flauta reta), construídos apenas com base na iconografia da época; harpa gótica; virginal (com base em instrumento original do século XVII); cavaquinho com cravelhas de buxo (sem que nunca tivesse manuseado um instrumento semelhante).
         Ainda no sábado, à noite, fomos ao Teatro Municipal de Sabará, a antiga Casa da Ópera (1819), dotado de uma das melhores acústicas de que se tem notícia, assistir a uma apresentação do conjunto Época de Ouro, criado por Jacob Pick Bittencourt e composto por conhecidos chorões como Ronaldo do Bandolim, César Faria (pai do Paulinho da Viola),  Jorginho do Pandeiro e o lendário Dino 7 Cordas, tema de dissertações de mestrado de Márcia Taborda (UFRJ, 1995, orientador Turíbio Santos) e Remo Tarazona Pellegrini (Unicamp, 2005, orientador Ricardo Goldemberg). Terminada a apresentação, fomos aos bastidores conversar com os músicos. Confesso que temi pela integridade física de Angelo Zaniol, tamanho  foi o seu contentamento...
         Para arrematar, na manhã de domingo, 30/7/1995, organizei uma roda de choro em minha casa, com a participação de meus filhos (Alexandre, violão de 6 cordas; Guilherme, cavaquinho-centro; Renato, flauta); Sílvio Carlos, violão de 7 cordas; Ausier Vinícius, cavaquinho-solo; Zé Luís, flauta; Ronaldo, pandeiro e Jorginho, da equipe de resgate do Corpo de Bombeiros, cavaquinho-centro. Por motivo de viagem, não pôde estar presente meu amigo Oszenclever Camargo, talentoso percussionista. Como Ronaldo tivesse um compromisso, permaneceu pouco tempo e eu assumi o pandeiro. Durante algumas horas, interpretamos, entre outras músicas, Você, carinho e amor, Camundongo, Minhas mãos, meu cavaquinho, Chorinho antigo e Pedacinhos do céu (de Waldir Azevedo); Santa Morena (de Jacob do Bandolim); A dança do urso (de Candinho do Trombone); OdeonAmeno Resedá (de Ernesto Nazareth); Lamentos e Rosa (de Pixinguinha); Eu sonhei que tu estavas tão linda (de Lamartine Babo); Se me faltar o seu amor (valsa de Gastão Lamounier e Mário Rossi); Pau no burro (de Altamiro Carrilho); Chorinho da Jéssica (de Ausier Vinícius, dedicado à sua filha); Nostalgia (samba-canção do próprio Angelo Zaniol, dedicado à memória de Ary Barroso, em solo de cavaquinho do autor) e Saudade de Itabira, do itabirano Sílvio Carlos. Durante essa roda de choro, que conduziu Angelo Zaniol a um estado de arrebatamento, ele recebeu o título de “Chorão Honorário”, título esse que, como confessaria mais tarde, orgulhava-o mais do que uma “segunda licenciatura”. O supracitado choro-serenata Saudade de Itabira, de Sílvio Carlos, merece um comentário à parte por, pelo menos, três razões: em primeiro lugar, por ter sido considerado por Angelo Zaniol, em correspondência datada de 18/6/1998, uma “indiscutível obra-prima”; em segundo lugar, por ter sido incluído no primeiro CD do grupo Flor de Abacate, gravado em julho de 1999 (no encarte que acompanha o CD, fui convidado, juntamente com Waldir Silva e o violonista/produtor musical Geraldo Vianna, a redigir breve apreciação a respeito do mesmo); e, em terceiro lugar, por ter recebido, mais recentemente, inspirada letra, carregada de poesia, de autoria de um primo de Sílvio Carlos, o jornalista Márcio Metzker, que, referindo-se à terra natal de Carlos Drummond de Andrade – o “poeta maior” –, arrematou: “O retrato me dói na parede / Quero ser teu poeta menor”.
         Na noite de 30 de julho, levei Angelo Zaniol à Rodoviária. Com a voz embargada pela emoção e contendo, a duras penas, as lágrimas, ele se despediu de mim e exigiu que eu me retirasse antes da partida do ônibus para o Rio de Janeiro...
         Em setembro de 1995, Angelo Zaniol enviou-me preciosa fita-cassete com 14 gravações históricas do pianista texano Scott Joplin (1868-1917), filho de um escravo alforriado, considerado a estrela maior do ragtime, estilo de piano nascido por volta de 1900 – uma  espécie de versão negra das polcas e valsas importadas da Europa, com base num ritmo fortemente sincopado. Nas palavras de Angelo Zaniol, Scott Joplin foi um artista tão grande quanto infeliz, “pois morreu pobre e louco, como seu irmão ideal, o carioca Nazareth”. Seguindo a mesma linha de raciocínio, em encarte de CD do Trio Madeira Brasil – que contém a curiosa peça The easy winners, do compositor norte-americano –,  Sérgio Cabral afirma, com muita propriedade, que o espanhol Manuel de Falla, o venezuelano Antonio Lauro e o próprio Scott Joplin “se fossem brasileiros, seriam autênticos chorões”. As relações entre a habanera cubana, o choro e o ragtime foram exploradas pela pianista Tânia Mara Lopes Cançado, professora da Escola de Música da UFMG, em tese de doutoramento defendida, em 1999, no Shenandoah Conservatory (Winchester, Virginia, USA), com o título An investigation of  West African and Haitian rhythms on the development of syncopation in Cuban Habanera, Brazilian Tango/Choro and American Ragtime(1791-1900). O embrião dessa tese pode ser encontrado no CD Conexão: Unindo África, Europa e as Américas, lançado em 1996 pelo selo Karmim. Nesse CD, com pretensões didáticas, Tânia Mara conduz os ouvintes à virada do século XIX, convidando-os a vivenciar as similaridades estilísticas e a evolução musical nas Américas do período colonial até os nossos dias, e, para ilustrar sua argumentação, interpreta peças de Claude Bolling (1930-  ), Ignacio Cervantes (1847-1905), Heitor Villa-Lobos (1887-1959), do próprio Scott Joplin (1868-1917) e de “seu irmão ideal” Ernesto Nazareth (1863-1934).
         Em carta datada de 28/12/1995, referindo-se a um CD de Waldir Silva que eu lhe enviara, assim se expressa Angelo Zaniol a respeito do popular cavaquinista que, procedente de Bom Despacho, aportou, ainda rapazinho, em Pitangui, onde foi aluno de meu saudoso amigo José Nunes de Oliveira, violonista autodidata, conhecido por Prof. Patesco: “Mi è piaciuto immensamente anche il CD Isto é Seresta! Waldir Silva è un Artista con la a maiuscola, come si dice, che sa trasformare ogni motivo, anche il più semplice, in opera d’arte grazie al suo tocco e alla sua inesauribile inventiva; molto bravi anche i musicisti che lo accompagnano. Come mi sarebbe piaciuto conoscere di persona il M° Waldir durante il mio breve soggiorno a Belo Horizonte!”. Importa assinalar que os “bravi musicisti” que acompanharam Waldir Silva nessa gravação são integrantes do grupo de choro Sarau Brasileiro: Hélio Pereira (bandolim/trombone), Magela (violão de 7 cordas), Geraldinho Alvarenga (cavaquinho/violão de 6 cordas) e Izaías (pandeiro).
         Em julho de 1996, Angelo Zaniol enviou-me a partitura do choro Escala Real, dedicado a mim e à minha família, acompanhada da seguinte explicação: “Escolhi este título, Escala Real, que soa um pouco extravagante, mesmo para um choro, porque as cinco pessoas que formam a família Savassi Rocha me parecem harmoniosamente unidas e vencedoras na vida como a escala real no jogo do pôquer. Em suma, o máximo”. Com efeito, a chamada escala real – royal straight flush – consiste no agrupamento das cinco notas mais altas do mesmo naipe, o que ocorre muito raramente, ou seja, há 649.739 probabilidades contra uma de que isso aconteça. Refletindo sobre esse número, não me parece maior a probabilidade de que eu travasse conhecimento com um requintado chorão, por intermédio de um seu amigo que abordou, sem conhecê-los, dois jovens que, conversando em português, subiam os degraus de um trem noturno em Veneza!!! A propósito, há uma curiosa palavra em língua inglesa – SERENDIPITY – que se aplica, como uma luva, a situações dessa natureza. Serendipity  significa a aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso; por metonímia, pode significar também cada uma dessas coisas felizes ou úteis. De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra provém do topônimo Serendip ou Serendib (do árabe Sarandib), antigo nome do Sri Lanka, mais o sufixo  -ity, e foi cunhada, em 1754, por Horace Walpole, escritor inglês, a partir do conto de fadas Os três príncipes de Serendip, cujos heróis sempre faziam descobertas, acidentalmente ou por sagacidade, de coisas que não procuravam.
         Em setembro de 1996, gravamos, em minha casa, o choro Escala Real (Renato, flauta; Alexandre, violão de 6 cordas; Guilherme, cavaquinho-centro; Sílvio Carlos, violão de 7 cordas; Luiz Otávio Savassi, pandeiro). Ao receber a fita-cassete, Angelo Zaniol enalteceu a gravação, chamando a atenção para o solo de flauta do “bravíssimo Renato” e para as “esplêndidas baixarias” (para os não-iniciados no jargão do choro, as “baixarias” devem ser entendidas como frases de contraponto, geralmente em escala descendente, improvisadas nos bordões, ou seja, utilizando somente as cordas mais graves do violão).
         De minha parte nunca fiz segredo de meu fascínio pelas “baixarias”, tanto assim que fui homenageado pelo artista Paulo Cangussu Cordeiro (Guz) com uma charge em que apareço empunhando um violão de 7 cordas, instrumento que, infelizmente, não toco (uma réplica dessa charge encontra-se exposta no Bar Pedacinhos do Céu, de Ausier Vinícius).
         Em correspondências datadas de 19/3/1997 e 14/4/1997, Angelo Zaniol elogia o CD Roda de Choro, do analista econômico Luís Nassif,  por ele cognominado “autentico maestro del bandolim”. E acrescenta: “Mi è piaciuto molto, e ho aprezzato di Luís Nassif non solo il virtuosismo al bandolim, ma anche la sua presentazione, intrisa di sentita saudade”. A propósito, em sua “presentazione”, Luís Nassif refere-se ao seu primo Oscar Nassif de Mesquita, o “Oscarzinho”, que se tornaria sócio do Clube do Choro de Belo Horizonte. Doublé de violonista e Professor do ICEX-UFMG, Oscar Nassif é Doutor em Física pela City University of New York (1980-1984), com Pós-Doutorado pelo Haverford College, Pennsylvania (1990-1991) e pela Rockefeller University, New York (1996-1997). Ultimamente, o Prof. Oscar tem coordenado importantes pesquisas, de caráter multidisciplinar, reconhecidas internacionalmente, com a participação de físicos e biólogos, em instigante interação. À guisa de exemplo, destacam-se o estudo da flexibilidade da molécula do DNA, propriedade que permite ao material genético dobrar-se sobre si mesmo para caber no núcleo da célula, e o estudo, com o auxílio da chamada microscopia de desfocalização, das flutuações da superfície celular dos macrófagos, que, como se fossem ondas marítimas, relacionam-se com o fenômeno conhecido por fagocitose (emissão de prolongamentos para englobar partículas). A presença de um cientista desse quilate em rodas de choro ilustra, de forma exemplar, como tais encontros são democráticos, na medida em que reúnem, em fraternal congraçamento, pessoas dos mais variados perfis.
         Numa memorável tarde de maio de 1997, tive o prazer de entregar pessoalmente ao grande flautista Altamiro Carrilho, no Bar Pedacinhos do Céu, a partitura do choro-baião Renda de notas, composto por Angelo Zaniol em sua homenagem. Profundamente sensibilizado, Altamiro Carrilho comparou seu estado de espírito com a sensação que experimentara durante inesquecível temporada na extinta União Soviética, quando uma reconhecida autoridade na área musical classificou-o como um dos três maiores flautistas do mundo (e, entre os três, o mais afinado!).
         Em dezembro de 1997, por ocasião do Natal,  Angelo Zaniol  me presenteou com um belo CD – Meu Brasil brasileiro –, contendo 12 peças instrumentais de sua autoria, interpretadas por músicos italianos e destinadas a “homenagear um País, com a sua gente e a sua música maravilhosas”. Acompanhava o CD um livreto de capa verde, com as partituras, um auto-retrato a bico de pena e um emocionado texto redigido, à guisa de apresentação, pelo próprio Angelo Zaniol. Tomaram parte nas gravações, realizadas no estúdio DIGITALSOUND, em Vedelago (comuna da Província de Treviso, próxima de Castelfranco Veneto), os seguintes músicos: faixas 1 e 11- Alessandro Muscatello (clarineta) e Eros Squizzato (piano); faixas 2,6 e 9 - Giovanni Mugnuolo (flauta) e Antonio Disco (piano); faixa 3 - Giovanni Mugnuolo (flauta) e Marco Fumo (piano); faixa 4- Romilda Beraldo (piano); faixas 5 e 8 - Elisabetta Guglielmin (piano, melodia) e Romilda Beraldo (piano, acompanhamento); faixa 7- Alessandro Adomilli (violão); faixa 10 - Stefano Pagliari (violino) e Sebastiano Zaniol (piano); faixa 12- Eros Squizzato (piano, melodia) e Marco Fumo (piano, acompanhamento). Além das peças musicais já mencionadas – Nostalgia, Meditação, Renda de notas e Escala Real – , dedicadas, respectivamente, a Ary Barroso, João Pernambuco, Altamiro Carrilho e Luiz Otávio Savassi Rocha, figuram no CD composições dedicadas a Pixinguinha, Waldir Azevedo, Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu, Angelina Feijó e Ausier Vinícius. Em maio de 1998, eu e meus três filhos, imbuídos do espírito do regional brasileiro tradicional (pandeiro, flauta, violão e cavaquinho), gravamos, em casa, o choro Cavaquinho Feiticeiro, dedicado a Ausier Vinícius. A despeito das  imperfeições da gravação, a reação de Angelo Zaniol, ditada, sobretudo, pelo coração, não poderia ser mais contundente: “... fiquei extasiado ao ouvir minha música interpretada com tamanho bom gosto e tanta maestria. Obrigado por essa homenagem que me toca profundamente. Eu o confesso: chorei de alegria e emoção!”.
         Em correspondência enviada em janeiro de 1998, Angelo Zaniol lamenta o fato de a revista Roda de Choro, editada por Egeu Laus e Rodrigo Ferrari, atravessar sérias dificuldades financeiras, a ponto de correr o risco de ter vida curta, o que  realmente aconteceu, pois não passou do número 5 (março de 1997). A propósito, no ano anterior, ao fazerem a apresentação do número 3 (mai/jun  de 1996), os editores, impregnados de justificado otimismo pela boa receptividade do periódico, chegaram a afirmar, categoricamente: “Só temos uma certeza: a Roda de Choro veio pra ficar!”. Ora, num mundo cuja marca registrada é a impermanência das coisas, é por demais arriscado acalentar quaisquer certezas...
         Em carta datada de 9/9/1998, Angelo Zaniol dá notícias de uma viagem de férias de verão que fizera à Córsega, ilha do Mediterrâneo, cuja música tradicional, interpretada por um velho senhor ao “mandolino”, num estilo “abbastanza simile a quello dell’indimenticabile Luperce Miranda”, muito o impressionou. Chamou-lhe a atenção, também, o acompanhamento de duas guitarras, uma delas fazendo os acordes ritmados e a outra as “baixarias”, a exemplo da música brasileira instrumental dos anos dourados.  Retornando da referida viagem, Angelo Zaniol passou a ser acometido por problemas de saúde, a ponto de inviabilizar nossa correspondência. Tanto assim que, em carta remetida em abril de 1999, na qual afirmava, literalmente, “sinto-me fraco e esvaziado dentro de mim”, ele pediu-me que não lhe escrevesse mais, até que pudesse anunciar que o pior havia passado. E o fez deveras compungido, mesmo porque, em carta anterior (8/2/1999), ele a mim se referira como o  “melhor e mais fiel amigo que um homem afortunado pudesse achar neste mundo”. Como não poderia deixar de ser, respeitei, embora bastante angustiado, o desejo de Angelo Zaniol. Por conseguinte, não me senti à vontade para enviar-lhe requintado arranjo do choro Escala Real, concebido pelo maestro Oiliam Lanna, professor de Regência e Composição da  Escola de Música da UFMG, que me foi apresentado por um amigo comum, João Gabriel Marques Fonseca, que, com invulgar talento, acumula, na UFMG, as funções de professor da Faculdade de Medicina e da própria Escola de Música.
         Ao cabo de oito anos e meio, mais precisamente no dia 6/10/2007, em Assembléia do Clube do Choro de Belo Horizonte, propus ao Diretor Presidente, Jonas Cruz, e ao Diretor Administrativo, Lúcio Flávio, que, na última reunião do ano, distribuíssemos aos associados cópias do CD Meu Brasil brasileiro e do livreto correspondente, com o texto (Apresentação) de Angelo Zaniol e as partituras. Os dois confrades não só acataram prontamente minha proposta, como sugeriram que eu redigisse o presente depoimento. No dia seguinte, domingo, 7/10/2007, já noite avançada, resolvi religar o computador que desligara minutos antes, como se uma força estranha me induzisse a fazê-lo. Acionei a base de dados Google e digitei, simplesmente, Angelo Zaniol, como fizera algumas vezes desde a interrupção de nossa correspondência. E fui tomado por profunda emoção ao me deparar com o anúncio inesperado do site comemorativo do 60º aniversário da morte de João Pernambuco, organizado pelos webmasters  Angelo Zaniol e seu filho Simone. Era a volta, em grande estilo, do élan vital e do amor à música que caracterizavam  o Angelo Zaniol que conheci em 1995 – homem de cultura, professor universitário, historiador, brasilianista, organólogo, compositor, arranjador, instrumentista, desenhista, artista plástico e luthier –, uma espécie de Leonardo da Vinci contemporâneo, no entendimento de minha esposa Ana Maria.
            Com indizível alegria mandei uma mensagem ao velho amigo (angelozaniol@gmail.com), que respondeu no mesmo diapasão. O site (www.joaopernambuco.com), lançado oficialmente em 16/10/2007, no dia/mês do falecimento de João Pernambuco, ocorrido em 1947, inclui, entre outras preciosidades, os seguintes trabalhos, todos eles da lavra de Angelo Zaniol: arranjos, para dois violões, da “obra sobrevivente” de João Pernambuco; o inspirado choro Dois pinhos pra sonhar, dedicado à memória do compositor nordestino; a segunda edição digitalizada, com novos arranjos, de Meu Brasil brasileiro; a reprodução de ensaios e artigos escolhidos, bem como de desenhos (em especial retratos); fotos, com legendas, dos instrumentos musicais construídos entre 1976 e 1991; novos arranjos e transcrições de peças de outros compositores, incluídos Johann Sebastian Bach e Aníbal Augusto Sardinha (Garoto); 15 composições de caráter erudito dedicadas a amigos, à esposa Sonia e aos filhos Sebastiano e Simone.
           A exemplo de Angelo Zaniol, meu fascínio pelo choro – gênero musical e, sobretudo, maneira de tocar – remonta à infância, desde quando, embevecido, ouvi pela primeira vez, ao vivo, um autêntico “conjunto regional”, que, de forma descontraída, tocava em festa de aniversário na casa de meu primo Walter Savassi, na Rua Araripe 436, Bairro da Floresta. Por conseguinte, sou forçado a concordar inteiramentecom as palavras do poeta português Guerra Junqueiro (1850-1923), mencionadas em entrevista concedida ao jornal O Tempo, em 6/9/1998, pelo odontólogo/compositor Guinga: “As almas infantis são brandas como a neve, são pérolas de leite em urnas virginais: tudo quanto se grava e quanto ali se escreve, cristaliza em seguida e não se apaga mais”.
            Um outro musicista europeu com quem, embora superficialmente, já interagi, tem demonstrado, como Angelo Zaniol, um imenso amor pelo Brasil, sua cultura e sua gente. Trata-se do húngaro Ian Guest (ianguest@uai.com.br), que, radicado no Brasil desde 1957, foi o introdutor do método Kodály de musicalização no país adotivo. Bacharel em Composição pela UFRJ/Berklee College of Music (Boston, USA), ministrou aulas para músicos refinados, como Turíbio Santos, Raphael Rabello, Joel Nascimento, Luiz Otávio Braga, Maurício Carrilho, Henrique Cazes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Hélio Delmiro, Maurício Einhorn, Yuri Popoff e Maurício Tapajós. Ademais, publicou expressivos trabalhos, como o livro 16 estudos escritos e gravados para piano (Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 2000), acompanhado de CD, em que desponta o inspirado choro  É bom chegar a Mariana, numa emocionada homenagem à mais antiga cidade de Minas Gerais, que ama profundamente, e onde reside há alguns anos.
         Meditando sobre tudo que escrevi, arremato este depoimento como comecei – ou seja, citando João Guimarães Rosa, cujo centenário de nascimento comemorar-se-á em 2008, e fazendo minhas suas palavras em Grande Sertão: Veredas: “As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!”.
Belo Horizonte, outubro de 2007