As provas de que João Pernambuco não era iletrado

Quando João Pernambuco chegou ao Rio de Janeiro em 1904, com 20 anos de idade, ele devia possuir decerto uma instrução demasiadamente modesta, já que as condições particulares da sua família não lhe permitiram frequentar nenhuma escola. De fato, ele foi obrigado a aprender muito cedo o duro ofício de ferreiro. Todavia, nos anos seguintes, graças à sua viva inteligência e uma vontade fora do comum, ele pôde, com a provável ajuda de alguns bons amigos e admiradores, como Quincas Laranjeiras, preencher esta grave lacuna. Em 1913 ele foi, portanto, capaz de oferecer à sua irmã Maria uma fotografia sua, tendo no verso uma bela dedicatória autografada com caligrafia correta e até bastante apurada. Além disto possuímos vários documentos nos quais encontra-se a sua assinatura, a saber João Teixeira Guimarães, seu verdadeiro nome, ou João Pernambuco, seu apelido.
A sobrinha-neta do Mestre, Senhora Valdinéa Monteiro Rodrigues, confirma da sua parte que ele «além de ler diariamente os jornais, tinha álbuns com recortes de artigos artísticos e políticos que o interessavam». E mais ainda: seu filho Mauro, nos faz notar que «a Lei Eleitoral Brasileira nº 3.139 de 2 de Agosto de 1916, não permitia aos analfabetos o direito de vota, e assim, os seus Títulos de Eleitor provam que João Pernambuco possuia determinado grau de instrução».
Concluindo, o boato de que João Pernambuco seria analfabeto parece desprovido de qualquer fundamento, como é até ofensivo. É lamentável que esta notícia falsa esteja ainda hoje presente em certas fontes bibliográficas importantes como o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: ver a sua página
http://www.dicionariompb.com.br/detalhe.asp?nome=Jo%E3o+Pernambuco&tabela=T_FORM_A&qdetalhe=bi

Observações de Ary Nogueira Neiva

Ao analisar as assinaturas de João Teixeira Guimarães, algum leitor mais jovem poderá avaliar que a letra de João Pernambuco não possuia uma caligrafia de alguém que tivesse um elevado grau de instrução, dadas as aparências rústicas de sua grafia.
Porém, cumpre notar que naquela época, não existiam canetas-tinteiro, e muito menos canetas esferográficas; as canetas de então, eram de corpo de madeira, como um lápis, e uma pena de metal, a qual era mergulhada em um vidro-tinteiro. E escrever ou assinar o nome com essas canetas, sempre provocavam um arranhado no papel, dando a impressão de que a caligrafia era ruim.
Digo isso, porque já passei por esse tipo de problema quando criança; na minha infância, usávamos esse tipo de caneta com pena de metal, e nas mesas das escolas, tinham um local próprio, um buraco na tampa da mesa, para o aluno colocar ali, seu vidro com tinta.
Como não sei se todos os leitores estão cientes do significado dessas palavras “caneta-tinteiro”, “penas de metal”, e “vidro-tinteiro”, passo aqui sua descrição:
Caneta-tinteiro: canetas que através de um procedimento, sugam a tinta de um vidro, e essa tinta fica armazenada em seu corpo. Escrever com uma caneta desse tipo, é muito bom, pois sua pena é apropriada e deslisa bem pelo papel.
Penas de metal: ainda tenho várias para caligrafia decorativa e para desenho. Requer maior cuidado ao usá-las, pois podem “raspar” o papel e borrar a escrita.
Vidro-tinteiro: como seu nome indica, era um pequeno vidro, similar aos vidros de tinta Nanquin, usado para desenho a bico-de-pena.

 



Verso da fotografia oferecida em 1913 por João Pernambuco à sua irmã Maria.


Resposta afirmativa ao item “Instrução” e assinatura de João Teixeira Guimarães
na sua Carteira de Identidade de 1916.


Assinatura de João Teixeira Guimarães no Título de Eleitor de 1916.


Assinatura de João Teixeira Guimarães no Gabinete de Identificação de 1923.


Assinatura de João Pernambuco na partitura, que talvez fazia parte do seu arquivo
pessoal, da Canção do Norte  A Jandaya, publicada pela Casa Viúva Guerreiro.
A canção foi gravada em 1926 por Patrício Teixeira (Disco ODEON 123162).


Assinatura de João Teixeira Guimarães no Título de Eleitor de 1933.
É preciso notar que a sua caligrafia está aqui tornando-se incerta,
sem dúvida por causa da idade e da conseqüente presbitia.