Homenagem a João Pernambuco
no 60° aniversário de falecimento
por Angelo Zaniol
ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS de JOÃO PERNAMBUCO
 
 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quem lê certas páginas do livro João Pernambuco - Arte de um Povo ou leva em conta certos depoimentos a respeito de João Pernambuco (como o do pesquisador Mozart de Araújo, que afirma sem mais: «… apesar do talento excepcional que possuia [Pernambuco] morreu pobre») tem uma idéia talvez um pouco deformada da efetiva condição social deste artista popular.
É claro que naquela época nenhum músico, por talentoso e conhecido que fosse, podia com a sua atividade artística tornar-se podre de rico, como acontece hoje. Todas essas fotos porém nos oferecem a imagem de um homem que jamais na sua vida conheceu a angústia da verdadeira pobreza, nem mesmo na sua juventude, quando para viver exercia os ofícios mais duros e humildes, como o de Ferreiro ou Calceteiro.
Examinemos, por exemplo, a foto de 1909, quando Pernambuco tinha 25 anos: vemos aqui um homem forte e em plena forma, vestido quase como um lorde e que empunha um violão decorado, seguramente de um certo valor. Várias outras fotos confirmam a mesma impressão de grande dignidade e até de elegância, a do homem que sabe e pode vestir-se sempre com cuidado. Às vezes o hábito faz o monge.
Em conclusão Pernambuco não foi um homem tão pobre assim, e sobretuto jamais ele foi um artista atormentado e infeliz por causa da sua condição social. Ao contrário seu Álbum de Fotografias dá «a noção do que é a felicidade: a certeza de ter deixado tanta amizade para tantos» (João Pernambuco - Arte de um Povo, cit., p. 45).

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Em relação com estas minhas Considerações Finais a Senhora Valdinéa Monteiro Rodrigues, sobrinha-neta de João Pernambuco, enviou-me a 28 de Janeiro de 2008 um longo e-mail, que – com a sua amável permissão – transcrevo aqui integralmente, omitindo apenas algumas breves frases que não dizem respeito ao assunto:
 «Pela falta de dados comprovados sobre João Pernambuco, tenho que recorrer a familiares, principalmente minha irmã Valdenira e minha prima Clélia, mãe de Rosane, que me são mais próximas e fácil comunicação. Mesmo assim são dados de memória, narrados por minha mãe Irene e minha tia Iracy (mãe de Clélia), já falecidas. Vou contar-lhe o que sei, confirmado e lembrado por elas.
Comentando e completando suas Considerações Finais, realmente o porte e a elegância de João Pernambuco mostram bem sua estirpe. Não é em uma feira nordestina que um homem adquire isto e sim no berço de nascência. Seu pai possuía fazendas de gado, com muitos empregados. Haviam compartimentos para armazenar rapadura, queijo, etc. Consta que cada vez que nascia um filho, ele aumentava suas terras, comprando mais uma fazenda em benefício deste, chegando assim a adquirir terras na Paraíba, estado vizinho.
Minha bisavó (mãe de João Pernambuco), de família fina, descendente de holandeses, casou-se muito nova e contra a vontade dos pais. Teve diversos filhos, sobrevivendo: Pedro, Maria, João (Pernambuco), José e Joana.
No interior de Pernambuco era comum que as aulas fossem dadas em casa por falta de escolas (minha avó por parte de pai era professora, inclusive de línguas e piano, que tocava muito bem, deu muitas aulas desta maneira). Acredito portanto, que João Pernambuco tenha aprendido os rudimentos escolares desta forma quando criança; quanto às irmãs dele, teriam permanecido analfabetas «para não escreverem bilhetes para namorados» (o curioso disto é que tia Maria, mais tarde, vindo para o Rio de Janeiro, encontrando-se à janela de sua casa era admirada por um rapaz bem mais velho, que um dia jogou-lhe um bilhete; como não sabia ler, precisou de alguém de confiança e só bem mais tarde soube que ele pedia a ela que espera-se por ele que voltaria para casar-se com ela, fato que mais tarde se concretizou).
Continuando minha narração, consta que tio João, fazia parte da comitiva do pai que levava o gado para venda nas feiras. Com o falecimento de meu bisavô, minha bisavó entregou a um advogado suas terras para venda, pois queria ir para a cidade, acabou casando-se com ele, que era um jogador e acabou perdendo tudo. Não foi um casamento feliz e dele nasceram os filhos: Joca, Chiquinha e Manoel, que foi para a Amazônia e nunca mais se teve notícias.
É possível portanto, que embora provindo de família de bem, seu pai fazendeiro de posses, porém ignorante, não tenha se preocupado com a instrução dos filhos e como morreu cedo, pouco pôde fazer. Era hábito, na época, dar à cada filho uma profissão, como aconteceu na família de meu pai.
Até onde vai a verdade disto e onde entra a lenda, eu não sei, o certo é que todos os irmãos e minha bisavó, trajavam-se bem, eram bonitos e de bom aspeto, como demonstram as fotos que pretendo enviar para comprovação. Minha tia Maria usava permanentemente  um lindo par de brincos de ouro, que estão na foto e que deixou para minha mãe que era sua afilhada e que passou a usar sempre. Hoje eles me pertencem, quero dizer com isto, que uma pessoa de origem humilde não poderia ter este requinte.
Em seu tópico As provas de que João Pernambuco não era iletrado, não sei se se deve a amigos e admiradores sua instrução, acredito mais na história contada, ou seja, a estirpe da sua família. [...].
Quanto a tio João «morrer pobre», é relativo; ele deixou um terreno que um sobrinho apropriou-se. Também comprou e preparou sua sepultura, estendendo os direitos as suas sobrinhas (sómente Iracema foi ai enterrada, história interessante que merece referência futura), adquiriu título e tornou-se membro da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Paula, conforme documento que  lhe enviarei. [...]. Foi no hospital desta Ordem que ele faleceu, na ausência de seus companheiros musicais, mas assistido por minha mãe Irene e sua irmã Esmeraldina. Dizia ser um boêmio e por isto não constituiu família. Como você diz, não tinha complexo social, parecia ser feliz e realizado. [...]. A data de 16 de Outubro é marcante na nossa família: num 16.10 faleceu minha avó Joana; em16.10 nasceu minha irmã Valdenira, em 16.10 faleceu tio João. [...]. 
Lhe peço para não esquecer de mencionar que este acervo é devido a antigos familiares, coletados por Jandyr (enviados por Edith), tio Pedro, Armando e outros e ampliados por mim.»

 
 
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